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A Lenda da Serpente, por Maria Helena RR de Sousa*

... o Maranhão tornara-se "o reino da mentira". Lá, como no fundo dos mares, não havia solidariedade alguma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. A inconstância de tudo era tamanha que a baía de São Luiz era a única no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro...

13.01.2014  |  208 visualizações
Artigo publicado originalmente no Blog de Ricardo Noblat, http://oglobo.globo.com/pais/noblat/, 13 de janeiro de 2014


Em 1654, há 360 anos, o Padre Antonio Vieira no Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, em São Luís do Maranhão, disse: "A verdade que vos digo, é que no Maranhão não há verdade".

Para ele, o Maranhão tornara-se "o reino da mentira". Lá, como no fundo dos mares, não havia solidariedade alguma. Tal como entre os crustáceos e os peixes, imperava o canibalismo. A inconstância de tudo era tamanha que a baía de São Luiz era a única no mundo inteiro onde até o sol, tão certeiro em outras latitudes, enganava os pilotos. O astrolábio ora indicava um grau, ora dois, muitos barcos ali encalhavam, o que fez o padre concluir que "até o céu mentia no Maranhão".

Também se mentia em Lisboa, por exemplo. Mas ela era capital de um império. Podia repartir suas mentiras com outros cantos do mundo. São Luís, pequenina, não. Naquela vila, a mentira não tendo para onde ir alimentava ainda mais outras inverdades. Nasciam e ali ficavam. Lá a mentira dançava a roda, foi o que Vieira disse.

Com certeza foi por isso que a lenda da Serpente da Ilha, monstruoso ofídio que diziam dormir ao redor de São Luís e se algum dia suas presas encontrassem seu rabo, mordendo a si mesma, ela se ergueria para devastar com tudo, calou tão fundo nos locais.


Ontem, 12 de janeiro, a Folha de S. Paulo publicou um artigo de dona Roseana Sarney intitulado "O Maranhão de verdade". O texto completa a extraordinária entrevista que ela deu ao lado de um ministro da Justiça que não conseguia disfarçar o espanto.

Custo a me refazer do infame dia 3 de janeiro de 2014, assim como custei a me recuperar de 7 de fevereiro de 2007. Ana Clara e João Hélio, ambos com 6 anos, vida em ebulição, mas enternecedores na sua fragilidade, começavam a descobrir o mundo. Começavam a dispensar as rodinhas das bicicletas da vida.

Não acho que seja necessário guardar o peso da mão de uma criança em nossa mão para sentir o que senti. Mas quem ama uma criança de seis anos como eu amo, sofre em dobro, por certo.

O Governo Federal tem que agir e não é tuitando não, dona Dilma. O que se passou no Maranhão não foi uma rebelião. Cortaram cabeças e com elas jogaram futebol! E, dias depois, nesse mesmo presídio, a entrada era fácil, os telefonemas e mensagens também!

A hora é agora!

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Quanto a mim, peço perdão a Deus por ter advogado a pena de morte, algo que sempre deplorei. Mas um governo omisso e leniente erra muito mais que um Parlamento que se reúne para alterar, com os máximos cuidados, sua Constituição:

"Finalmente, registre-se breve crítica à expressão cláusulas pétreas, vez que fornece a idéia de que tais cláusulas estariam petrificadas e, portanto, protegidas contra qualquer espécie de alteração. Ora, conforme ensinou Gilmar Ferreira Mendes no Parecer 77, de 1994, referente à revisão da Constituição Federal, as cláusulas pétreas podem ser alteradas desde que a reforma não as suprima nem inicie um processo de erosão da ordem constitucional". Eduardo Simoes Neto, Revista Consultor Jurídico, 31 de janeiro de 2007

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* Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa* - É, antes de mais nada, uma pessoa maravilhosa. Colabora para diversos sites e blogs com seus artigos sobre todos os temas e conhecimentos de Arte, Cultura e História. Ainda por cima é filha do grande Adoniran Barbosa. Escreve semanalmente para o site Brickmann & Associados
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'Maragnon' - gravura atribuída a Frans Post c.1641/1644 (BN-RJ)
(fonte: Biblioteca Nacional)