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Diário Grande ABC

Sem medo, sem ódio. Coluna Carlos Brickmann

EDIÇÃO DOS JORNAIS DE DOMINGO, 2 DE OUTUBRO DE 2022

30.09.2022  |  412 visualizações
ódio

Sim, vota-se mais pela emoção do que pela razão. Mas é importante não exagerar. Uma eleição como a de hoje exige pensamento frio, uma análise tranquila de quem é o melhor candidato para o eleitor. Alguém que tenha pensamentos semelhantes (e, infelizmente, não será possível escolher propostas, porque é exatamente proposta o que faltou nessa campanha).

Alguém que, na opinião do eleitor, seja capaz de enfrentar crises e aos poucos pacificar um país em que a violência física chegou a um ponto em que se tornou perigoso vestir a camiseta de seu candidato nas ruas. Millôr Fernandes, um gênio, dizia que a democracia era poder torcer pelo Vasco na arquibancada do Flamengo. Uma famosa ativista e revolucionária comunista alemã, Rosa Luxemburgo tinha ideias semelhantes: liberdade é a liberdade dos que pensam diferente de nós, sempre. Completando, garantir a liberdade de quem pensa igual a nós não é liberdade, é cumplicidade. Aqui estão agredindo, verbal e fisicamente, quem se identifica com candidaturas diferentes da defendida pelos agressores. Aqui se mata gente porque veste algo que o identifique com o adversário.

Nem sempre foi assim: o professor e senador pernambucano Marcos Freire, duro adversário da ditadura militar, que também o detestava, usou um slogan brilhante quando se candidatou a um cargo público, na época em que o regime dos militares naufragava: “Sem medo, sem ódio”. Lição de vida.

 Cabeça no lugar

Até os ditadores militares tiveram lampejos de boa conduta. O marechal Castello Branco, tão logo chegou à Presidência num golpe, soube que seu irmão estava se aposentando e recebendo, como homenagem, um Fusca.

Foi rápido: o irmão não poderia aceitar o presente. O irmão lhe disse que não seria possível recusar a homenagem. Castello explicou que ele não poderia de jeito nenhum aceitar o carro. “O presente já está proibido. O carro não será seu de maneira nenhuma, isso está decidido. O que estamos discutindo é se você será preso ou não”.

Era da família, mas foi punido.

 Não pode, mas fez

A Secretaria de Orçamento informou ao presidente Jair Bolsonaro que ele deveria vetar o orçamento secreto por não ter assento constitucional. O alerta foi-lhe entregue no dia 2 de agosto, como apurou a bem-informada revista “Piauí”, assinado pelo coordenador-geral de Processos de Orçamentos da União, Gláucio Rafael da Rocha Charão, e pelo secretário adjunto de Orçamento Federal, Clayton Luiz Montes.

De acordo com o alerta, além de ferir a Constituição, o orçamento secreto “esvazia a prerrogativa do Poder Executivo de elaborar a proposta orçamentária”. Este dever é exclusivo do Executivo e não pode ser delegado a outro Poder.

 E daí?

Bolsonaro ignorou o alerta – o segundo, desde que o Tribunal de Contas da União já o havia advertido sobre a inconstitucionalidade do orçamento secreto. Inconstitucionalidade – e o TCU aponta ainda a violação da Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei Complementar 141, que trata do SUS.

O Supremo Tribunal Federal deve julgar ainda neste ano as ações que pedem o fim do orçamento secreto.

 A palavra oficial

Bolsonaro diz que o orçamento secreto é coisa do Congresso e que a ele só cabe executá-lo. A “Piauí” pediu explicações ao Planalto e ao Ministério da Economia. O Planalto não respondeu. O Ministério da Economia disse que não iria se manifestar.

 Calma no Brasil

O presidente da República divulgou, como se fosse verdadeira, uma notícia falsa: a de que teria sido proibido ir votar com as cores verde e amarela. Em seguida, protestou violentamente, perguntando ao Tribunal Superior Eleitoral se a proibição seria democrática.

Não, não seria. E por isso mesmo implantá-la não seria possível. Mas Bolsonaro ameaçou utilizar as Forças Armadas para apoiar alguém que se sentisse perseguido nas zonas eleitorais. Não leve a sério as ameaças de golpe militar.

Que o caro leitor vá votar tranquilo em seu candidato favorito, sem acreditar em bravatas.

 As pesquisas

A partir de agora, as pesquisas eleitorais perdem toda a validade: a pesquisa suprema, a das urnas eletrônicas, prevalece. Hoje à noite, os caros leitores saberão se o seu candidato está eleito ou foi para o segundo turno. De qualquer jeito, calma: nada de festejar tripudiando sobre os adversários. Nada de reagir com violência ao pessoal que quiser tripudiar sobre você: é melhor estar vivo e em boa saúde para participar do futuro do país, seja qual for o próximo presidente.

E não vale a pena brigar com amigos ou parentes por causa de política. As paixões se dissolvem com o tempo, as amizades vão perdurar ao longo dos anos.

Amanhã vai ser outro dia. Ou não. Preserve-se.

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