Coluna - Observatório da Imprensa
Míriam Leitão, repórter e colunista de economia de O Globo, foi presa pela ditadura quando tinha 19 anos e estava grávida de seu primeiro filho (o marido também foi preso, levado para outro lugar, e um ficou sem qualquer informação sobre o outro). Foi espancada, torturada, mantida nua numa cela, o sangue empastando o cabelo; junto com ela, uma cobra, uma jiboia. Míriam tinha de ficar em silêncio, de se mexer o mínimo possível, para não atrair a atenção da cobra. E o pavor era constante: a jiboia mata apertando suas vítimas, quebrando seus ossos, engolindo-a inteira.
Corte: poucos dias depois da entrega à Comissão da Verdade, pelas Forças Armadas, de documento negando desvio de finalidade de seus imóveis na época da ditadura, Míriam Leitão entrevistou o ministro da Defesa, Celso Amorim, pela GloboNews. O ministro vacilou e defendeu o documento militar, dizendo que estava formalmente correto. Em outras palavras, diante de uma repórter que foi torturada e lhe narrou como tinha sido a tortura, aceitou a tese de que não houve desvio de função das instalações militares.
Numa belíssima reportagem do sempre excelente Luiz Cláudio Cunha, publicada neste Observatório da Imprensa, Míriam Leitão contou sua história. completando aquilo que já havia sido dito na entrevista com Celso Amorim.
Agora entra a questão da imprensa da cultura do ódio. Durante anos, por ser de O Globo, por criticar a condução da política econômica pelo Governo de Dilma Rousseff, militantes governistas se dedicaram a demonizá-la, insultá-la, trocar seu nome, insistir na bobagem de que suas críticas se deviam exclusivamente à vontade diabólica de torcer contra o Brasil, e criticar os leitores que, baseados na reputação de competência que Míriam Leitão veio construindo ao longo do tempo, confiam em suas opiniões.
Durante anos, também, esta mesma militância defendeu todos os ministros do atual Governo, inclusive Celso Amorim, esquecendo até, convenientemente, que ocupou um cargo importante na época da ditadura militar, o de presidente da Embrafilme (da qual, faça-se justiça, foi afastado por ter permitido o financiamento a um filme crítico ao regime ditatorial, Pra Frente, Brasil, estrelado por Reginaldo Farias, Antônio Fagundes e Nathalia do Valle).
No debate entre uma vítima da ditadura - uma mulher grávida torturada, espancada, ameaçada pela presença permanente de uma imensa cobra na cela - e um defensor da atitude olímpica dos militares, que não se consideram responsáveis por nada que ocorreu de errado na época - muitos jornalistas adotaram a posição de avestruz: omitiram-se, simplesmente.
Adorariam atacar os militares; mas como fazê-lo se o representante dos militares era ministro do Governo petista, e pela segunda vez (antes, Celso Amorim tinha sido chanceler). Adorariam defender a moça torturada, mas como fazê-lo se passaram anos a atacá-la por motivos ideológicos, ou, pior ainda, por achar que o seu patrão era melhor que o dela? Pegou mal - tão mal quanto a feia posição militar de nem desculpar-se por torturas ocorridas na ditadura ou defender as torturas por algum motivo.
Em certos casos, é preciso lembrar um dos livros da Bíblia cristã, a Revelação, ou Apocalipse (3:15-16): "Sei que você não é frio nem quente (...) Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca."
Comparação infeliz
Seguindo-se à entrevista de Míriam Leitão com o ministro Celso Amorim e à reportagem de Luiz Cláudio Cunha, o colunista Rodrigo Constantino publicou, na Veja.com, um blog criticando a jornalista, com o título: "Míriam Leitão fala da tortura que sofreu na ditadura e quer pedido de desculpas. Legítimo, mas e o seu pedido de desculpas?"
Em resumo, Constantino critica Míriam por apresentar-se como adversária da ditadura (o que era), mas defender uma ditadura comunista, pelo que deveria pedir desculpas. Mas a comparação era descabida: Míriam Leitão foi torturada de fato, o que é um crime, e a ideologia comunista que professava era uma ideia, e ter ideias não é crime.
Veja.com convenceu Rodrigo Constantino (pressionando-o ou não, não ficou claro) a retirar do ar seu texto, o que foi feito. E, na opinião deste colunista, retirá-lo do ar foi uma atitude correta: a discussão é livre, mas não se pode partir, na discussão, para a criminalização de ideias opostas.
Censura é isso
Um caso de censura, de fato, ocorreu no Rio Grande do Sul: irritado com pesquisa realizada pelo Instituto Methodus sobre a eleição gaúcha, Guilherme Gomes, assessor de imprensa do governador Tarso Genro, PT, tentou impedir a Rede Bandeirantes de divulgá-la. Gomes ameaçou criar "uma nova relação entre nós e a Band" - em outras palavras, menos diplomáticas, cortar os anúncios. A Bandeirantes divulgou a mensagem de Gomes, enviada pelo WhatsApp, juntamente com a pesquisa, que mostrava vantagem de onze pontos percentuais da candidata Ana Amélia, do PP, sobre o governador Tarso Genro.
Gomes pediu desculpas "pelo mal entendido" e garantiu que não se opunha à divulgação da pesquisa, mas à escolha do Instituto Methodus, que a seu ver tem errado com frequência. Nas últimas pesquisas anteriores, o Ibope deu empate técnico entre Tarso e Ana Amélia; o Datafolha indicou vantagem de nove pontos para Ana Amélia; e o Methodus, onze.
Resposta da Bandeirantes ao assessor de Tarso Genro:
"O que espanta é que o governador Tarso Genro pensa que esse tipo de pressão, ou ameaça, funcione com o grupo Bandeirantes. Nunca funcionará. A Band vai continuar divulgando as pesquisa eleitorais dos institutos que escolher, segundo seus critérios reconhecidamente legítimos".
O coordenador da campanha de Tarso Genro, Carlos Pestana, minimizou o episódio, que viu como manifestação pessoal do assessor de imprensa, e não do governador. E garantiu que o resultado do Instituto Methodus não reflete a realidade da situação eleitoral no Rio Grande do Sul.
Veja na TV
A Editora Abril acaba de lançar a TVeja, uma TV pela Internet dedicada à cobertura e análise política e econômica. Ainda é cedo para analisar a programação da TVeja, que apresentará seu forte time de comentaristas dos blogs da revista. Mas vale a pena prestar atenção em Joice Hasselman, jornalista paranaense, excelente entrevistadora - fala macio e faz perguntas duríssimas com voz suave, evitando o antijornalístico duelo com o entrevistado. Tem uma ótima história jornalística no Paraná, onde acabou sendo vetada por políticos dos mais diferentes partidos. Foi um tiro no pé: em TVeja, Joice ganha o público nacional.
O Globo investiga
Outra boa novidade é o novo projeto Preto no Branco de O Globo. O objetivo é conferir e analisar sem partidarismos as promessas de candidatos à Presidência da República e ao Governo do Rio, atribuindo-lhes uma de sete classificações: Falso, É cedo para dizer, Insustentável, Verdadeiro, mas..., Verdadeiro, Contraditório, Exagerado. Endereço eletrônico, http://oglobo.globo.com/blogs/preto-no-branco/.
É divertido: faz contas, confere custos. Em outros veículos há matérias tocando nesse tema, mas Preto no Branco faz isso organizadamente, com todos os principais candidatos e suas principais promessas de campanha.
Um exemplo
Anthony Garotinho, candidato (favorito) ao Governo fluminense, pelo PR, disse que foi pioneiro na implantação da política de cotas, na Universidade Estadual do Rio. Classificação do Preto no Branco: "Verdadeiro, mas..."
O decreto 3.708, que instituiu as cotas, foi assinado pelo governador Anthony Garotinho no final de 2001. Os primeiros alunos negros matriculados pelo sistema de cotas entraram na Universidade em 2003. Mas o pioneirismo coube aos gaúchos: em julho de 2001, quatro meses antes do decreto de Garotinho, a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul criou o regime de cotas para alunos que comprovassem "hipossuficiência econômica".
Getúlio, 60 anos
Em 24 de agosto de 1954, enfrentando uma série de crises - o chefe de sua guarda pessoal participando de um atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, no qual foi morto um oficial da Aeronáutica, um inquérito policial-militar dotado de amplos poderes vasculhando seu Governo e seus amigos, a descoberta de vasta rede de corrupção (o próprio presidente da República disse que havia "um mar de lama" nos porões de seu palácio - o presidente Getúlio Vargas se matou com um tiro no peito. A maré virou: as manifestações contra Getúlio, que até as vésperas dominavam as ruas do Rio de Janeiro, se transformaram em gigantescas manifestações contra os inimigos de Getúlio.
A imprensa fez boas matérias sobre os eventos de 60 anos atrás; e há também excelentes livros, alguns deles essenciais para quem quiser estudar a história brasileira, à disposição nas livrarias (há também edições, a custo bem mais baixo, em e-books). Alguns livros: Getúlio, de Lira Neto, três volumes; Getúlio, últimos dias de um presidente, João Jardim; Brasil, de Getúlio a Castello, do brasilianista americano Thomas Skidmore; Vargas e a crise dos anos 50, de Angela de Castro Gomes; Getúlio Vargas, a Esfinge dos Pampas, de Richard Bourne; e Dossiê Getúlio Vargas, de Daniel Rodrigues Aurélio. Deve haver outros, mas estes já compõem um excelente painel da época (que, ao contrário do que se possa imaginar, não terminou com o suicídio de Getúlio: continuou em sucessivas crises, passou pelo 31 de março de 1964 e chega até hoje).
Tá faltando mais um
Há muitos e muitos anos, um grande jornal brasileiro só publicava fotos de negros na primeira página em dois casos: ou Pelé ou um dirigente africano. Um dia, a norma foi abruptamente rompida: Zé Keti, compositor de morro, autor entre outros dos monumentais A Voz do Morro e Máscara Negra, foi a principal foto da primeira página. Quem violou a norma não escrita de tal maneira que os donos do jornal só souberam do fato com a edição nas ruas foi um grande jornalista, que morreu há poucos dias: Carlos Tavares.
Tavares era de primeiro time e sempre gostou de trabalhar com gente de primeiro time. Foram seus companheiros Samuel Wainer, Jorge de Miranda Jordão, Henrique Veltman, Luiz Ernesto Kawall, o jovem foca Merval Pereira; para dirigir a ótima revista Problemas Brasileiros, da Federação do Comércio de São Paulo, foi um dos que escolheram Isaac Jardanovski.
Cansado de redações, Tavares trocou o Rio por São Paulo, onde se dedicou à assessoria de políticos. Fez campanhas eleitorais, foi secretário de Estado; e, na Federação do Comércio, onde ficou muito tempo, foi um dos conselheiros mais próximos do presidente Abram Szajman. E - um de seus maiores feitos - participou de alguns dos grandes embates políticos do país sem perder a classe, mantendo os amigos de um lado e de outro, ignorando os insultos e se recusando a fazê-los. Um cavalheiro, enfim; uma pessoa elegante.
Um cavalheiro a menos no jornalismo.
Como...
De um grande jornal impresso, comemorando os 60 anos da inauguração do Parque do Ibirapuera, em São Paulo: